Tudo pronto para a última ceia.
E enquanto envenenava o vinho santo, repetia em voz alta todas as frases clichês que havia dito nos últimos tempos...
'Eu entendo que não damos mais certo juntos.'
'Não tem problema você sair de casa. Eu vou me virar bem! Sou uma mulher independente, afinal...'
'Pode levar o que quiser. A confiança ainda existe, né? Por isso decidimos não casar. Não precisamos de documentos!'
'Nossas vidas tem que continuar, sim. Fico feliz que está tudo dando ainda mais certo pra você agora.'
'E qual é o problema de você estar conhecendo alguém? Quero que você seja feliz, ao lado de quem quer que seja!'
'Que bom que está tudo dando certo entre você e ela. Fico realmente feliz de você estar se encontrando nela, como não foi comigo.'
'Nossa, vocês vão se casar? Igreja, festa... nem sabia que você era desses. Que surpresa agradável!'
'Convite? Claro! Por que não vem trazer pessoalmente? Somos pessoas civilizadas, e eu estou louca pra conhecer essa mulher tão perfeita de quem você não cansa de falar.'
Mentiras educadas.
Mas naquela noite tudo teria fim. Tudo, desde o comportamento demagógico e socialmente aceitável até as lembranças escondidas nos álbuns de fotografia debaixo da cama.
Não precisaria mais provar nada para os olhares especulativos da vizinha nem para os questionamentos extenuantes nos telefonemas cotidianos de sua mãe. Nenhum desses entenderia, realmente. E nem precisariam entender!
E finalmente pararia de enganar a si mesma. Aquela pose diante do espelho já não a convencia fazia tempo. Seria um novo tempo: um tempo de verdade.
Terminou o seu trabalho. Tudo estava pronto. Silenciou e ouviu a música ao fundo: aquela seria a trilha sonora daquela noite de redenção.
E quando todos estivessem ao redor da mesa, ela teria o prazer de levantar o copo, fazer o brinde e tomar o primeiro gole. E todo esse mundo de mentiras daria lugar a outro plano, e era uma pena ela não poder mostrar isso para todos os que duvidavam dela. Lá ela tinha certeza que ele a pertencia, que seriam felizes e que aquela terceira pessoa não era relevante e desapareceria. Em um gole seu conto de fadas se tornaria real, e todas essas coisas inferiores da terra não valeria de nada.
Um brinde ao amor -ela ensaiava, com um largo sorriso nos lábios ao ouvir a campainha. Era chegada a hora.
"você recusa, me desmerece, mas dessa luta vou sair sem nenhum arranhão..."

Puxa, não seria tão mais fácil assumir as nossas fragilidades ao invés de prepararmos uma "saída triunfal" destas?
ResponderExcluirGrande beijo!