As autoridades estavam preocupadas.
Médicos, agentes de saúde, políticos, policiais, população civil, todos andavam consternados, sem saber o que fazer.
A epidemia de amores não-correspondidos não parava de crescer.
Por onde quer que se passasse viam-se vítimas, para onde quer que se olhasse ouviam-se suspiros, flores, espinhos, por todo lugar só se falava nisso.
E de tão contagioso, a cada olhar mais uma vítima se somava. Talvez já apaixonada por aquela que acabara de olhar, que estava apaixonada por um outro que desconhecia seu amor por estar apaixonado por uma terceira que nem sabia de sua existência por estar apaixonada por um apaixonado, criando uma infinita quadrilha de Drummond que se espalhava por todos os cantos da cidade.
E cura não havia, e alento não tinha, e nenhum espaço seria suficiente pra que todos esses amores tortos ficassem em quarentena. Nas praças, os mais românticos desenhavam flores em seus cadernos pensando em seus amados, sonhando, entre um suspiro e outro, com o dia em que seriam reparados, considerados, correspondidos. Nas igrejas, os mais fervorosos imploravam por intervenção superior, e até, num momento de negação terrena, agradeciam ao divino por seu amor eterno e recíproco. Se todos fossem assim, diziam entre preces repetidas e lágrimas saídas de um coração apertado. E também nos terreiros, nas ciganas, nas casas que ensinavam simpatias, gerando um andaço de sumiço-de-cuecas-no-varal paralelo à epidemia de amores não-correspondidos.
Os mais espontâneos se declaravam, sem medo do amor não-correspondido virar uma desilusão. Não que a desilusão e a recusa os livrasse do mal, mas havia uma lenda urbana que o ligeiro alivio no peito que dava após falarem dos seus sentimentos era um caminho pra cura. Crendice.
Mas a maioria, enorme maioria, com o perdão do pleonasmo, hipérbole, o que seja, nem sabia como fazer isso; era o caso mais grave e mais comum: ilusório, impossível, impensável e que dominava suas vidas num misto de esperança e dor, taquicardias e sorrisos, emoções e falta de ar que em pouco tempo controlava suas vidas.
Os corpos mais fortes resistiam às manifestações públicas e por algum tempo conseguiam esconder os sintomas por algum tempo e se misturar aos normais, desdenhavam, negavam, mas logo menos isso se tornava impossível, e histericamente tomavam as ruas com suas lágrimas e declarações impulsivas e pouco pensadas.
E a epidemia de amores não-correspondidos tomava as ruas sem pudor.
Algo precisava ser feito.